Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista
Cetamina e Escetamina: quais são as diferenças?
Nos últimos anos, o interesse pelos tratamentos baseados em cetamina aumentou significativamente, especialmente após a aprovação da escetamina intranasal para pacientes com depressão resistente ao tratamento.
Entretanto, junto com esse avanço surgiu uma grande confusão. É comum encontrar termos como “cetamina”, “escetamina”, “cetamina intravenosa”, “escetamina intravenosa” e “Spravato®” sendo utilizados como se fossem equivalentes.
Na realidade, essas expressões descrevem moléculas, formulações, vias de administração e situações regulatórias diferentes.
Compreender essas diferenças é importante para interpretar corretamente as evidências científicas e entender por que determinadas estratégias possuem indicações específicas.
Antes de continuar: se você ainda não sabe o que caracteriza a depressão resistente, recomendo a leitura do artigo https://depressaocampinas.com.br/depressao-resistente-ao-tratamento-quando-o-antidepressivo-nao-funciona/. Se quiser entender melhor a escetamina intranasal, também pode ler https://depressaocampinas.com.br/escetamina-para-depressao-resistente-quando-esse-tratamento-pode-ser-indicado/.
Primeiro: cetamina e escetamina não são exatamente a mesma molécula
A cetamina é formada por duas moléculas que são imagens espelhadas entre si, chamadas enantiômeros:
- R-cetamina
- S-cetamina (escetamina)
O medicamento tradicionalmente utilizado em anestesia contém uma mistura dessas duas formas e é conhecido como cetamina racêmica.
Já a escetamina corresponde apenas ao enantiômero S, desenvolvido posteriormente para uso específico em psiquiatria.
Essa diferença molecular explica parte das diferenças farmacológicas entre as duas formulações, embora ambas compartilhem um mecanismo de ação relacionado à modulação do sistema glutamatérgico por meio do receptor NMDA.
Molécula, via de administração e aprovação regulatória: são conceitos diferentes
Uma dúvida frequente é imaginar que a diferença está apenas na forma de aplicação.
Na verdade, existem três aspectos distintos que precisam ser considerados:
| Característica | Cetamina racêmica | Escetamina intravenosa | Escetamina intranasal (Spravato®) |
|---|---|---|---|
| Molécula | Mistura R + S | Apenas S | Apenas S |
| Via de administração | Geralmente intravenosa | Intravenosa | Intranasal |
| Registro para depressão no Brasil | Não | Não | Sim |
| Uso em depressão | Off-label | Off-label | On-label |
| Estudos pivotais para aprovação regulatória | Não | Não | Sim |
Essa distinção é importante porque muitas discussões acabam misturando molécula, via de administração e aprovação regulatória, que são conceitos diferentes.
Cetamina racêmica: qual é a situação no Brasil?
A cetamina racêmica está disponível no Brasil, porém seu registro sanitário é como medicamento anestésico.
Isso significa que ela não possui aprovação da Anvisa para o tratamento da depressão.
Na prática, seu uso em psiquiatria ocorre off-label, isto é, fora das indicações descritas em bula.
O termo off-label não significa que o tratamento seja inadequado ou proibido. Em diversas áreas da medicina existem medicamentos utilizados dessa forma, desde que a decisão seja fundamentada em evidências científicas, julgamento clínico e consentimento informado do paciente.
E a escetamina intravenosa?
Outra dúvida frequente é sobre a escetamina administrada por via intravenosa.
Embora existam estudos avaliando essa estratégia, essa formulação também não possui aprovação regulatória para o tratamento da depressão no Brasil.
Até o momento, a apresentação aprovada pela Anvisa para essa indicação é a escetamina intranasal (Spravato®).
Isso não significa que a escetamina intravenosa seja necessariamente inferior ou ineficaz.
Significa apenas que ela não passou pelo processo regulatório que resultou na aprovação da formulação intranasal, baseada em um amplo programa de estudos clínicos de fase III, com avaliação de eficácia, segurança e manutenção da resposta ao longo do tempo.
Essa distinção é importante para compreender o contexto regulatório sem extrapolar conclusões sobre eficácia entre diferentes formulações.
O que significa um medicamento ser aprovado para depressão?
Para que um medicamento receba aprovação para uma determinada indicação, é necessário demonstrar, por meio de estudos clínicos conduzidos segundo critérios regulatórios, que seus benefícios superam os riscos naquela população específica.
No caso da escetamina intranasal, esse processo envolveu um extenso programa internacional de desenvolvimento clínico, incluindo estudos randomizados, estudos de manutenção do tratamento e acompanhamento de longo prazo.
Essas evidências sustentaram sua aprovação para pacientes com depressão resistente ao tratamento.
O que mostram as evidências científicas?
A maior parte das evidências disponíveis para a escetamina intranasal deriva de um programa clínico estruturado que incluiu diferentes estudos de fase III.
Principais estudos
| Estudo | Principal contribuição |
|---|---|
| TRANSFORM-2 | Demonstrou eficácia da escetamina associada ao antidepressivo oral na redução dos sintomas da depressão resistente. |
| SUSTAIN-1 | Demonstrou redução do risco de recaída em pacientes que responderam ao tratamento. |
| SUSTAIN-2 | Estudo aberto de segurança e efetividade em condições próximas à prática clínica. |
| SUSTAIN-3 | Confirmou manutenção da resposta clínica e segurança em longo prazo. |
| ASPIRE I e II | Avaliaram pacientes com depressão maior associada à ideação suicida aguda. |
Já a literatura envolvendo cetamina intravenosa inclui diferentes estudos clínicos, revisões sistemáticas e metanálises que sugerem benefício em pacientes com depressão resistente. Entretanto, esses estudos apresentam maior heterogeneidade em relação à dose, frequência das aplicações, protocolos utilizados e duração do acompanhamento, o que dificulta comparações diretas com o programa clínico desenvolvido para a escetamina intranasal.
Por esse motivo, atualmente não existem evidências suficientes para afirmar superioridade clínica de uma estratégia sobre a outra.
Então qual tratamento é melhor?
Essa talvez seja a pergunta mais comum — e também aquela que merece a resposta mais cuidadosa.
Até o momento, não existem estudos robustos que permitam concluir que uma formulação seja superior à outra de maneira geral.
A escolha do tratamento deve considerar diversos fatores, entre eles:
- características clínicas do paciente;
- diagnóstico correto;
- tratamentos previamente realizados;
- perfil de segurança;
- disponibilidade da terapia;
- experiência da equipe assistencial;
- contexto regulatório.
Mais importante do que comparar moléculas de forma isolada é selecionar a estratégia mais adequada para cada paciente.
Na prática do consultório
Dr. Lucas Giraldelli
Médico Psiquiatra
Na minha prática clínica, percebo que muitos pacientes chegam ao consultório após pesquisarem diferentes informações na internet e, frequentemente, encontram comparações simplificadas entre cetamina e escetamina. Na realidade, essa decisão é mais complexa do que escolher uma molécula ou uma via de administração.
Minha avaliação começa pela confirmação do diagnóstico, pela análise cuidadosa dos tratamentos anteriores e pela compreensão do impacto que a depressão tem causado na vida daquela pessoa. Só então discutimos quais estratégias terapêuticas fazem sentido para aquele contexto específico.
Minha atuação é voltada à psiquiatria intervencionista, com foco em pacientes com depressão resistente. Sou especialista em Psiquiatria pela UNICAMP, pós-graduado em Psiquiatria Intervencionista pelo IPq-USP, coordeno o Serviço de Psiquiatria do Hospital São Luiz Campinas (Rede D’Or), colaborei com o Serviço de Escetamina do Ambulatório de Psiquiatria da UNICAMP e participo da educação médica sobre o uso da escetamina intranasal.
Essa experiência reforça uma convicção importante: o sucesso do tratamento depende muito mais da seleção adequada do paciente, da indicação correta e do acompanhamento longitudinal do que da simples escolha entre diferentes formulações.
Perguntas frequentes
Cetamina e Escetamina são a mesma coisa?
Não. A escetamina corresponde ao enantiômero S da cetamina, enquanto a cetamina racêmica é composta pelos enantiômeros R e S.
A cetamina pode ser utilizada para tratar depressão?
Existem estudos que apoiam seu uso em depressão resistente. No Brasil, entretanto, essa utilização ocorre de forma off-label, pois a cetamina não possui aprovação específica da Anvisa para essa indicação.
A escetamina intravenosa é aprovada para depressão?
Não. Atualmente, a formulação aprovada pela Anvisa para depressão resistente é a escetamina intranasal (Spravato®).
Off-label significa tratamento experimental?
Não necessariamente. Off-label significa apenas que o medicamento está sendo utilizado de forma diferente daquela descrita em bula. Essa prática pode ser respaldada por evidências científicas e deve ser indicada de forma individualizada pelo médico.
Referências
- Daly EJ, Trivedi MH, Janik A, et al. Efficacy of Esketamine Nasal Spray Plus Oral Antidepressant in Treatment-Resistant Depression (TRANSFORM-2). JAMA Psychiatry. 2019.
- Daly EJ, Trivedi MH, Janik A, et al. Randomized Withdrawal Study of Esketamine Nasal Spray Plus Oral Antidepressant for Relapse Prevention (SUSTAIN-1). JAMA Psychiatry. 2019.
- Wajs E, Aluisio L, Holder R, et al. Long-term Safety and Maintenance of Response with Esketamine Nasal Spray (SUSTAIN-3). Ther Adv Psychopharmacol. 2025.
- Fu DJ, Ionescu DF, Li X, et al. Esketamine Nasal Spray in Patients with Major Depressive Disorder and Acute Suicidal Ideation or Behavior (ASPIRE I). J Clin Psychiatry. 2020.
- Ionescu DF, Fu DJ, Qiu X, et al. Esketamine Nasal Spray in Patients with Major Depressive Disorder and Acute Suicidal Ideation or Behavior (ASPIRE II). Int J Neuropsychopharmacol. 2021.
- McIntyre RS, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Clinical Guidelines for the Management of Major Depressive Disorder.
- Papakostas GI, Salloum NC, Hock RS, et al. Ketamine versus esketamine for treatment-resistant depression: systematic review and meta-analysis. (revisão comparativa).
Dr. Lucas Giraldelli
CRMSP 183221 | RQE 135007
Especialista em Psiquiatria pela UNICAMP
Pós-graduação em Psiquiatria Intervencionista pelo IPq-USP
Coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital São Luiz Campinas (Rede D’Or)
Não necessariamente. Off-label significa apenas que o medicamento está sendo utilizado de forma diferente daquela descrita em bula. Essa prática pode ser respaldada por evidências científicas e deve ser indicada de forma individualizada pelo médico.