Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista

Existe uma pergunta que costuma surgir logo na primeira consulta de pacientes encaminhados ao meu consultório:

“Doutor, eu já tomei três antidepressivos diferentes. Isso significa que tenho depressão resistente?”

A resposta curta é: não necessariamente.

Na prática, não é o número de antidepressivos que define uma depressão resistente, mas a qualidade dessas tentativas de tratamento.

Parece um detalhe, mas faz toda a diferença.

Antes de contar quantos medicamentos foram utilizados, precisamos responder uma pergunta ainda mais importante:

Esses antidepressivos realmente tiveram oportunidade de funcionar?


Existe um número mínimo?

As principais diretrizes internacionais consideram que a depressão resistente ao tratamento pode ser diagnosticada quando o paciente não apresenta melhora satisfatória após pelo menos duas tentativas de tratamento com antidepressivos diferentes, utilizados em condições adequadas.

Esse conceito aparece de forma consistente em documentos internacionais e foi reforçado por uma revisão publicada na World Psychiatry em 2023.

Mas existe um detalhe importante.

Esses dois tratamentos precisam ser considerados falhas terapêuticas verdadeiras.

Caso contrário, estamos falando de pseudo-resistência, e não de depressão resistente.


O que significa uma “falha terapêutica”?

Essa talvez seja a parte mais importante deste artigo.

Muitas pessoas acreditam que basta trocar de antidepressivo duas vezes para receber o diagnóstico de depressão resistente.

Não é assim.

Para que um antidepressivo seja considerado uma tentativa válida, normalmente esperamos que ele tenha sido utilizado:

  • na dose considerada terapêutica;
  • durante tempo suficiente;
  • com uso regular;
  • sem interrupções importantes;
  • para o diagnóstico correto.

Se qualquer um desses critérios não foi cumprido, talvez o medicamento nunca tenha sido realmente testado.


Dois antidepressivos podem significar duas histórias completamente diferentes.

Imagine dois pacientes.

O primeiro utilizou sertralina durante apenas quinze dias e interrompeu porque acreditava que o medicamento “não fazia efeito”. Depois iniciou escitalopram por duas semanas e também desistiu.

Tecnicamente, ele utilizou dois antidepressivos.

Mas nenhum deles foi testado adequadamente.

Agora imagine outro paciente.

Ele utilizou sertralina em dose terapêutica durante oito semanas, com excelente adesão. Depois realizou um segundo tratamento completo com venlafaxina, novamente pelo tempo recomendado e sem resposta clínica significativa.

Nesse segundo cenário, existe muito mais fundamento para discutirmos depressão resistente.

Perceba que ambos usaram dois antidepressivos.

Mas apenas um deles realmente apresentou duas falhas terapêuticas.


Por que isso é tão importante?

Porque o diagnóstico muda completamente o tratamento.

Quando confirmamos uma depressão resistente verdadeira, podemos discutir estratégias que vão além dos antidepressivos convencionais.

Entre elas estão:

  • potencialização medicamentosa;
  • combinação de antidepressivos em situações específicas;
  • escetamina intranasal;
  • cetamina intravenosa;
  • estimulação magnética transcraniana (EMT);
  • eletroconvulsoterapia (ECT) em casos selecionados.

Esses tratamentos possuem indicações próprias e devem ser considerados no momento adequado.

Chamá-los cedo demais pode expor o paciente a procedimentos mais complexos sem necessidade.

Chamá-los tarde demais também pode prolongar um sofrimento que poderia ser tratado de forma mais eficaz.

Por isso o diagnóstico correto é tão importante.


Então por que ainda existe tanta confusão?

Porque a depressão resistente não é uma doença diferente.

Ela representa um estágio da evolução do tratamento.

E essa evolução precisa ser analisada com bastante cuidado.

Na prática clínica, é comum encontrar pacientes que chegam dizendo que já utilizaram cinco ou seis antidepressivos.

Quando reconstruímos toda a história, percebemos que alguns foram utilizados por poucos dias, outros em doses insuficientes ou em situações em que o diagnóstico ainda não estava completamente estabelecido.

Isso muda completamente a interpretação do caso.

É justamente por isso que uma avaliação especializada faz diferença.

Mais do que contar medicamentos, precisamos entender toda a trajetória do tratamento.


O número de antidepressivos importa. Mas não é a única coisa que importa.

Se eu pudesse resumir esse tema em uma única frase, seria esta:

Não existe um número mágico de antidepressivos que define depressão resistente. Existe uma avaliação criteriosa da qualidade das tentativas anteriores.

Na maioria dos casos, consideramos o diagnóstico após duas falhas terapêuticas bem conduzidas.

Mas, antes de chegar a essa conclusão, ainda precisamos responder diversas perguntas:

  • O diagnóstico estava correto?
  • As doses eram adequadas?
  • O tempo de tratamento foi suficiente?
  • Houve boa adesão?
  • Existiam outras doenças interferindo na resposta?

Quando essas respostas são analisadas com cuidado, conseguimos distinguir quem realmente apresenta uma depressão resistente daqueles que ainda podem responder a tratamentos convencionais.

E essa diferença pode mudar completamente o caminho do tratamento.


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Referência científica

McIntyre RS, Alsuwaidan M, Baune BT, Berk M, Demyttenaere K, Goldberg JF, et al. Treatment-resistant depression: definition, prevalence, detection, management, and investigational interventions. World Psychiatry. 2023;22(3):394-412. doi:10.1002/wps.21120.