Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista

Aula para psiquiatras em formação sobre depressão resistente, escetamina e os impactos do atraso no tratamento.

Recentemente tive a oportunidade de ministrar a aula “Enfrentando o Tratamento da Depressão Resistente – O Custo de Não Fazer Nada”, voltada a médicos psiquiatras em formação.

Foi um momento especialmente importante para discutir um dos maiores desafios da psiquiatria atual: o cuidado de pacientes que permanecem deprimidos apesar de múltiplas tentativas de tratamento.

Embora grande parte das pessoas com depressão apresente melhora com antidepressivos convencionais, uma parcela significativa continua apresentando sintomas incapacitantes mesmo após diferentes medicações. Essa condição é conhecida como depressão resistente ao tratamento, também chamada por alguns autores de depressão refratária, e exige uma abordagem individualizada e baseada nas melhores evidências científicas.

O custo de esperar

O tema da aula surgiu a partir de uma reflexão simples.

Muitas vezes discutimos qual será o próximo tratamento, mas esquecemos de considerar o impacto de permanecer meses ou anos sem uma resposta clínica adequada.

A depressão resistente está associada a:

  • pior qualidade de vida;
  • maior prejuízo ocupacional;
  • dificuldades familiares;
  • maior utilização dos serviços de saúde;
  • aumento do risco de recaídas;
  • maior risco de comportamento suicida.

Por isso, reconhecer precocemente quando um tratamento não está produzindo os resultados esperados é tão importante quanto escolher a próxima estratégia terapêutica.

Em outras palavras, o custo de não agir pode ser maior do que o custo de modificar o plano terapêutico de forma criteriosa.

Quando a depressão deixa de responder ao tratamento?

Nem todo paciente que permanece sintomático apresenta depressão resistente.

Antes de estabelecer esse diagnóstico é necessário revisar diversos aspectos, como:

  • confirmação do diagnóstico;
  • adesão ao tratamento;
  • dose utilizada;
  • tempo adequado de uso;
  • presença de outras doenças clínicas ou psiquiátricas.

Somente após essa avaliação é possível concluir se realmente estamos diante de um quadro de depressão resistente.

Se você deseja entender melhor esse conceito, recomendo também a leitura do artigo Depressão resistente ao tratamento: quando o antidepressivo não funciona?, disponível aqui no site.

As novas possibilidades terapêuticas

Nas últimas décadas, a psiquiatria passou por mudanças importantes no tratamento da depressão resistente.

Além das estratégias clássicas de troca ou potencialização de antidepressivos, hoje contamos com recursos como:

  • psicoterapia baseada em evidências;
  • estimulação magnética transcraniana (EMT);
  • eletroconvulsoterapia (ECT);
  • escetamina intranasal;
  • outras abordagens baseadas no sistema glutamatérgico.

escetamina, frequentemente confundida com a cetamina (ou, como algumas pessoas pesquisam na internet, quetamina), representa um dos avanços mais relevantes no tratamento da depressão resistente nos últimos anos.

Embora sejam moléculas relacionadas, existem diferenças importantes entre cetaminaescetamina e suas diferentes vias de administração, tema que abordo em detalhes no artigo Cetamina e escetamina: quais são as diferenças?.

Educação médica também faz parte do cuidado ao paciente

Uma parte importante da minha atuação é participar da atualização científica de médicos psiquiatras.

A medicina evolui continuamente, e compartilhar evidências científicas com profissionais em formação significa contribuir para que mais pacientes tenham acesso a tratamentos adequados e indicados no momento correto.

Durante essa aula discutimos os principais consensos internacionais, estudos clínicos recentes e situações práticas encontradas no atendimento de pacientes com depressão resistente.

O objetivo não foi apresentar uma única estratégia terapêutica, mas discutir como tomar decisões individualizadas diante de casos complexos.

Na prática clínica

Atendo diariamente pacientes que chegam ao consultório após anos convivendo com sintomas depressivos persistentes. Muitos já utilizaram diferentes antidepressivos, passaram por diversos profissionais e frequentemente acreditam que “não existe mais tratamento”.

Na maioria das vezes, essa percepção não corresponde à realidade.

Minha experiência como psiquiatra, coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital São Luiz Campinas (Rede D’Or), colaborador do Serviço de Escetamina do Ambulatório de Psiquiatria da UNICAMP e palestrante em atividades de educação médica reforça uma convicção importante: reconhecer precocemente a depressão resistente permite ampliar as possibilidades terapêuticas e reduzir o impacto da doença na vida dos pacientes.

Foi justamente essa mensagem que procurei transmitir aos colegas durante a aula.

Mais do que conhecer novos medicamentos ou tecnologias, é fundamental compreender quando eles devem ser considerados e quais pacientes realmente podem se beneficiar de cada estratégia.

Depressão resistente em Campinas

Se você mora em Campinas ou na região e permanece com sintomas de depressão apesar do tratamento, vale a pena procurar uma avaliação especializada.

Cada caso deve ser analisado individualmente, revisando o diagnóstico, os tratamentos já realizados e as alternativas terapêuticas disponíveis atualmente.

O objetivo não é simplesmente trocar medicamentos, mas construir um plano terapêutico baseado nas melhores evidências científicas e nas características de cada paciente.

Perguntas frequentes

O que é depressão resistente?

É a condição em que o paciente não apresenta resposta satisfatória após pelo menos 02 (duas) tentativas adequadas de tratamento com antidepressivos.

Depressão refratária é a mesma coisa que depressão resistente?

Na prática clínica, os termos costumam ser utilizados como sinônimos, embora as diretrizes internacionais prefiram a expressão depressão resistente ao tratamento.

Escetamina e cetamina são iguais?

Não. A escetamina é um dos enantiômeros da cetamina e possui diferenças farmacológicas e regulatórias. No Brasil, a escetamina intranasal é a formulação aprovada pela Anvisa para depressão resistente.

Quando procurar um psiquiatra?

Se os sintomas persistem apesar do tratamento, se há piora funcional ou se ocorreram diferentes tentativas sem melhora significativa, uma avaliação especializada pode ajudar a revisar o diagnóstico e discutir novas estratégias.

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Referências