Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista
Recentemente, tive a oportunidade de apresentar uma aula sobre Psiquiatria Intervencionista para a equipe assistencial da CIAPsi – Atenção Psiquiátrica, instituição dedicada ao cuidado em saúde mental e ao modelo de Hospital Dia, com atuação em Campinas e Valinhos.
O encontro foi uma oportunidade de discutir como a evolução da psiquiatria nas últimas décadas ampliou as possibilidades de tratamento para pacientes que não apresentam resposta adequada às abordagens convencionais.
Mais do que apresentar novas tecnologias ou medicamentos, a proposta foi discutir quando considerar tratamentos intervencionistas, quais pacientes podem se beneficiar dessas estratégias e como integrá-las ao cuidado psiquiátrico convencional.
O que é Psiquiatria Intervencionista?
A Psiquiatria Intervencionista é uma área que reúne estratégias terapêuticas voltadas principalmente para pacientes com quadros mais complexos, graves ou resistentes aos tratamentos convencionais.
Entre as principais modalidades atualmente disponíveis estão:
- Escetamina intranasal;
- Escetamina endovenosa, em contextos clínicos específicos;
- Eletroconvulsoterapia (ECT);
- Estimulação magnética transcraniana (EMT);
- outras estratégias de neuromodulação e tratamentos biológicos.
Essas abordagens não devem ser vistas como substitutas da psiquiatria convencional. Na realidade, fazem parte de um arsenal terapêutico mais amplo, que permite individualizar o tratamento de acordo com as características de cada paciente.
Por que falar sobre Psiquiatria Intervencionista com uma equipe multidisciplinar?
O cuidado em saúde mental não acontece apenas durante a consulta médica.
Pacientes com depressão grave, transtorno bipolar, transtornos psicóticos, transtornos de ansiedade ou outras condições psiquiátricas complexas podem necessitar de acompanhamento mais intensivo e de uma equipe multidisciplinar preparada para reconhecer sinais de agravamento, acompanhar a evolução clínica e participar ativamente do plano terapêutico.
Nesse contexto, a atualização dos profissionais que atuam diretamente no cuidado desses pacientes é fundamental.
Discutir Psiquiatria Intervencionista com a equipe assistencial significa também discutir seleção de pacientes, segurança, monitoramento, integração entre diferentes profissionais e continuidade do cuidado.
Uma aula voltada à prática assistencial
A proposta da aula foi aproximar o conhecimento científico da realidade encontrada no cuidado cotidiano de pacientes com transtornos psiquiátricos de maior complexidade.
Ao longo do encontro, discutimos conceitos fundamentais da Psiquiatria Intervencionista e suas principais aplicações clínicas, com atenção especial à depressão resistente ao tratamento, à identificação de pacientes que podem se beneficiar de estratégias avançadas e à importância da integração entre diferentes profissionais da equipe assistencial.
Também foram abordados aspectos relacionados à indicação, segurança, monitoramento e acompanhamento longitudinal dos pacientes submetidos a tratamentos intervencionistas.
Mais do que conhecer novas modalidades terapêuticas, considero fundamental que toda a equipe envolvida no cuidado compreenda por que uma intervenção está sendo indicada, quais são seus objetivos e o que deve ser observado antes, durante e depois do tratamento.
Essa integração é particularmente importante em ambientes de cuidado intensivo e semi-intensivo em saúde mental, nos quais médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais e demais profissionais participam conjuntamente da evolução clínica do paciente.
A experiência de compartilhar esse conhecimento com a equipe do CIAPsi foi especialmente enriquecedora justamente pela possibilidade de promover uma discussão interdisciplinar sobre os caminhos atuais da Psiquiatria Intervencionista e sobre como incorporar essas estratégias de maneira responsável à prática clínica.
Depressão resistente: quando precisamos ampliar as estratégias?
Um dos principais temas relacionados à Psiquiatria Intervencionista é a depressão resistente ao tratamento.
Alguns pacientes apresentam melhora significativa com os tratamentos convencionais. Outros, entretanto, permanecem sintomáticos mesmo após diferentes tentativas terapêuticas adequadamente conduzidas.
Quando um paciente “não melhora” apesar de múltiplas intervenções, é importante não simplesmente repetir indefinidamente as mesmas estratégias.
É necessário revisar o diagnóstico, avaliar a adequação dos tratamentos anteriores, investigar fatores que possam estar contribuindo para a ausência de resposta e, quando indicado, considerar tratamentos diferentes daqueles já utilizados.
É nesse cenário que a Psiquiatria Intervencionista pode assumir um papel importante.
A importância de reconhecer o momento de intervir
Um dos pontos que considero mais importantes na formação de profissionais de saúde mental é compreender que tratamento também significa saber quando mudar de estratégia.
Em pacientes com depressão resistente, a permanência prolongada de sintomas pode representar prejuízo significativo para a vida profissional, familiar e social, além de estar associada a maior risco de recorrência e agravamento do quadro.
Por isso, o objetivo da Psiquiatria Intervencionista não é simplesmente utilizar uma tecnologia mais nova.
O objetivo é identificar o paciente certo, no momento certo, para a intervenção adequada.
Formação e atualização em Psiquiatria
A educação continuada é uma parte importante da minha atuação profissional.
Além da prática clínica, participo de atividades de treinamento e atualização de médicos e equipes assistenciais sobre tratamentos avançados em psiquiatria, especialmente no contexto da depressão resistente e da Psiquiatria Intervencionista.
Sou médico psiquiatra, especialista em Psiquiatria pela UNICAMP e pós-graduado em Psiquiatria Intervencionista pelo IPq-USP. Atualmente, coordeno o Serviço de Psiquiatria do Hospital São Luiz Campinas, da Rede D’Or, e já atuei como colaborador no Serviço de Escetamina do Ambulatório de Psiquiatria da UNICAMP.
Essa combinação entre assistência, ambiente hospitalar, formação acadêmica e educação médica permite uma troca importante com profissionais que estão diariamente envolvidos no cuidado de pacientes com transtornos mentais complexos.
Na prática clínica
Ao longo da minha experiência, percebo que um dos maiores avanços da psiquiatria não está apenas no surgimento de novos tratamentos, mas na possibilidade de escolher de forma cada vez mais precisa qual tratamento utilizar, para qual paciente e em qual momento da evolução da doença.
A Psiquiatria Intervencionista representa justamente essa mudança de perspectiva.
Não se trata de abandonar os antidepressivos, a psicoterapia ou outras estratégias tradicionais. Trata-se de reconhecer que alguns pacientes precisam de uma abordagem diferente ou complementar para alcançar uma resposta clínica significativa.
Por isso, encontros como esse são importantes. Quanto maior o conhecimento da equipe sobre as possibilidades terapêuticas disponíveis, maior a capacidade de reconhecer pacientes que podem se beneficiar de uma avaliação especializada e de encaminhá-los adequadamente.
Psiquiatria Intervencionista em Campinas e região
A discussão sobre tratamentos avançados em saúde mental vem ganhando espaço em Campinas, Valinhos e região, acompanhando a evolução da própria Psiquiatria Intervencionista.
Para pacientes com depressão resistente ou outros transtornos psiquiátricos de maior complexidade, a disponibilidade de profissionais familiarizados com essas estratégias amplia as possibilidades de avaliação e cuidado.
A indicação, entretanto, deve sempre ser individualizada. Nem todo paciente precisa de um tratamento intervencionista, e a escolha da estratégia depende do diagnóstico, da gravidade do quadro, dos tratamentos já realizados, das características clínicas e da avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios.
Como psiquiatra em Campinas, meu trabalho é integrar essas possibilidades ao tratamento psiquiátrico de forma individualizada, sempre considerando as melhores evidências científicas disponíveis.
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Sobre o autor
Dr. Lucas Giraldelli
Médico Psiquiatra | CRM-SP 188221 | RQE 135007
Especialista em Psiquiatria pela UNICAMP e pós-graduado em Psiquiatria Intervencionista pelo IPq-USP. Coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital São Luiz Campinas – Rede D’Or.
Atua com foco em depressão resistente, Psiquiatria Intervencionista, neuromodulação e tratamentos avançados em saúde mental.