Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico Psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista
Entre os dias 10 e 13 de outubro, Munique, na Alemanha, recebeu o 39º Congresso do European College of Neuropsychopharmacology (ECNP), um dos principais encontros internacionais dedicados à psiquiatria, à neurociência e ao desenvolvimento de tratamentos para os transtornos mentais.
Participar de um congresso dessa dimensão é uma oportunidade de sair da rotina do consultório e olhar para a medicina por outra perspectiva.
É um momento de atualização científica, mas também de reflexão sobre aquilo que fazemos diariamente: ouvir pessoas, compreender histórias complexas e buscar tratamentos que realmente façam diferença em suas vidas.
E existe uma questão que considero particularmente importante: como transformar o conhecimento produzido nos grandes centros de pesquisa em um cuidado melhor para os nossos pacientes?
Essa é a pergunta que dá sentido à participação em encontros como o ECNP.
A psiquiatria está mudando — e isso é importante para quem convive com depressão
Durante muito tempo, grande parte das discussões sobre o tratamento farmacológico da depressão esteve concentrada nos sistemas de serotonina, noradrenalina e dopamina.
Esses mecanismos continuam extremamente importantes. Os antidepressivos convencionais ajudam muitas pessoas e permanecem fundamentais na prática clínica.
Mas sabemos que uma parcela dos pacientes não alcança melhora suficiente, mesmo após diferentes tentativas de tratamento.
É justamente nesse ponto que a pesquisa em neurociências ganha especial relevância.
O desenvolvimento de novas abordagens, o estudo de diferentes circuitos cerebrais e a investigação dos mecanismos envolvidos na resposta terapêutica ampliam nossas possibilidades de compreender a depressão.
Isso não significa que estejamos diante de uma solução definitiva.
Significa que a psiquiatria continua evoluindo — e que precisamos acompanhar essa evolução com rigor.
Uma das reflexões mais importantes: não existe uma depressão igual à outra
No consultório, duas pessoas podem receber o mesmo diagnóstico e apresentar experiências completamente diferentes.
Uma pode ter como principal manifestação a tristeza persistente. Outra, a incapacidade de sentir prazer. Uma terceira pode sofrer predominantemente com lentificação, dificuldades cognitivas e falta de energia.
Mesmo quando o diagnóstico é semelhante, a história clínica, as condições associadas e a resposta aos medicamentos podem ser distintas.
A pesquisa contemporânea em psiquiatria procura compreender melhor essa heterogeneidade.
Uma das grandes questões da área é identificar características que ajudem a prever quais pacientes responderão melhor a determinadas intervenções.
Ainda estamos longe de conseguir escolher o tratamento ideal para cada pessoa com base em um único exame ou marcador biológico.
Mas a direção dessa investigação é importante: a medicina precisa reconhecer cada vez melhor as diferenças entre os pacientes, em vez de esperar que todos respondam da mesma maneira.
Depressão resistente: por que precisamos continuar pesquisando?
A depressão resistente ao tratamento é uma das áreas que mais me interessam na prática psiquiátrica.
Acompanho a complexidade de situações em que o paciente já utilizou diferentes medicamentos, realizou acompanhamento adequado e, mesmo assim, continua apresentando sofrimento significativo.
Nesses casos, é fundamental evitar duas atitudes.
A primeira é concluir precipitadamente que não existem mais alternativas.
A segunda é apresentar qualquer novo tratamento como uma solução milagrosa.
Entre esses dois extremos está o trabalho da medicina baseada em evidências: investigar o diagnóstico, revisar tratamentos anteriores, avaliar comorbidades e considerar diferentes estratégias terapêuticas.
Hoje, temos opções que vão além das trocas sucessivas de antidepressivos, incluindo estratégias de potencialização, neuromodulação e tratamentos que atuam por mecanismos farmacológicos diferentes.
A escetamina intranasal, por exemplo, representa uma dessas possibilidades para pacientes selecionados.
Entretanto, ampliar o número de opções não elimina a necessidade de uma indicação cuidadosa.
Pelo contrário: quanto mais recursos temos, maior é a responsabilidade de escolher adequadamente.
O entusiasmo com novas tecnologias precisa caminhar junto com a prudência
Uma característica importante da pesquisa médica é que resultados promissores nem sempre se traduzem imediatamente em benefícios comprovados na prática clínica.
Um estudo inicial pode revelar um mecanismo interessante.
Outro pode demonstrar melhora em um grupo específico de pacientes.
Mas é necessário compreender o desenho da pesquisa, suas limitações, o tamanho do efeito observado e a segurança da intervenção.
Também precisamos distinguir tratamentos já incorporados à prática clínica daqueles que permanecem experimentais.
Essa distinção é especialmente importante na psiquiatria, uma área em que pacientes e familiares frequentemente chegam à consulta depois de uma longa trajetória de sofrimento.
A esperança é necessária, mas precisa estar acompanhada de informação responsável.
Atualização científica não significa oferecer sempre o tratamento mais novo. Significa saber quando uma inovação realmente acrescenta benefício ao cuidado.
O futuro da psiquiatria também depende de medir melhor os resultados
Outro ponto que considero fundamental é a maneira como avaliamos a melhora dos pacientes.
Durante muito tempo, a redução dos sintomas depressivos foi o principal parâmetro utilizado para definir a eficácia de um tratamento.
Esse continua sendo um indicador essencial.
Entretanto, a recuperação envolve mais do que apresentar uma pontuação menor em uma escala clínica.
O paciente voltou a conseguir trabalhar?
Consegue se relacionar com as pessoas?
Recuperou o interesse por atividades importantes?
Está conseguindo tomar decisões e organizar a própria rotina?
Essas perguntas ajudam a compreender o impacto real do tratamento.
Uma pessoa pode apresentar melhora significativa da tristeza e ainda continuar com dificuldades importantes de motivação, concentração ou funcionamento cotidiano.
Por isso, considero essencial que a avaliação psiquiátrica inclua tanto os sintomas quanto a recuperação funcional.
A finalidade do tratamento não é apenas produzir números melhores em instrumentos de avaliação.
É ajudar a pessoa a recuperar possibilidades de vida.
A tecnologia pode ajudar, mas não substitui a relação médico-paciente
A evolução da psiquiatria também envolve novas ferramentas de avaliação, métodos de pesquisa e possibilidades de acompanhamento.
Entretanto, existe algo que nenhuma tecnologia deve nos fazer perder de vista: a importância da relação clínica.
O diagnóstico psiquiátrico exige escuta, contexto e compreensão da trajetória individual.
Da mesma forma, a escolha de um tratamento depende de fatores que não aparecem integralmente em exames ou escalas.
A ciência pode oferecer instrumentos cada vez mais sofisticados.
Mas a capacidade de integrar essas informações à história de uma pessoa continua sendo parte essencial da prática médica.
Para mim, inovação e cuidado humanizado não são conceitos opostos.
A tecnologia deve ampliar nossa capacidade de cuidar, e não tornar o atendimento impessoal.
O que uma experiência internacional acrescenta ao atendimento em Campinas?
Participar de encontros científicos internacionais é uma oportunidade de ampliar referências e acompanhar discussões que influenciam a evolução da especialidade.
Mas o valor dessa experiência não está simplesmente em ter estado em outro país.
Está no que fazemos com o conhecimento adquirido.
Ao retornar à rotina clínica, a responsabilidade é continuar avaliando criticamente as evidências e aplicá-las de maneira individualizada.
Isso inclui reconhecer quando um tratamento convencional continua sendo a melhor escolha.
Também inclui identificar situações em que estratégias especializadas podem oferecer benefícios adicionais.
E, principalmente, significa compreender que nenhum congresso substitui o acompanhamento cuidadoso de cada paciente.
A boa medicina depende de atualização permanente, mas também de continuidade, responsabilidade e capacidade de ouvir.
O que levo dessa experiência
O ECNP 2026 representa, para mim, uma oportunidade de refletir sobre o momento que a psiquiatria atravessa.
Estamos ampliando nosso conhecimento sobre os transtornos mentais, investigando mecanismos diferentes e desenvolvendo novas possibilidades terapêuticas.
Ao mesmo tempo, permanecem desafios importantes: compreender por que alguns pacientes não respondem aos tratamentos, identificar melhor as diferenças individuais e transformar resultados científicos em benefícios concretos.
Essas questões fazem parte do meu interesse pela depressão resistente e pela psiquiatria intervencionista.
E reforçam uma convicção que considero essencial na prática médica:
O futuro da psiquiatria não está apenas em descobrir novos tratamentos, mas em aprender a utilizar melhor o conhecimento que temos para cuidar de cada pessoa.
Voltar de um encontro científico como esse deve significar mais do que retornar com novas informações.
Deve significar retornar com novas perguntas, maior senso crítico e ainda mais compromisso com a qualidade do cuidado.
Porque, no fim, o que realmente importa não é o quanto a medicina avança dentro de um congresso.
É o quanto esses avanços conseguem fazer diferença na vida de quem precisa de tratamento.
Sobre o ECNP 2026
O 39º Congresso do European College of Neuropsychopharmacology foi realizado de 10 a 13 de outubro de 2026, em Munique, na Alemanha.
O evento reuniu profissionais e pesquisadores de diferentes países para discutir avanços em neurociências, psicofarmacologia, transtornos do humor e outras áreas relacionadas à saúde cerebral.
Fonte oficial: European College of Neuropsychopharmacology — ECNP Congress 2026.