Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista
Escetamina para Depressão Resistente: quando esse tratamento pode ser indicado?
Para muitas pessoas, o tratamento da depressão com antidepressivos convencionais proporciona melhora significativa dos sintomas. No entanto, uma parcela dos pacientes continua apresentando tristeza persistente, perda de interesse, falta de energia e prejuízo importante na qualidade de vida, mesmo após diferentes tentativas terapêuticas.
Nesses casos, pode ser necessário considerar estratégias além dos antidepressivos tradicionais. Entre os avanços mais importantes da psiquiatria nas últimas décadas está a escetamina intranasal, um tratamento desenvolvido especificamente para pacientes com depressão resistente.
Se você ainda não sabe exatamente o que caracteriza a Depressão Resistente, recomendo a leitura do artigo https://depressaocampinas.com.br/depressao-resistente-ao-tratamento-quando-o-antidepressivo-nao-funciona/. Nele explico como esse diagnóstico é estabelecido e por que reconhecer a resistência precocemente pode mudar o planejamento terapêutico.
O que é a Escetamina?
A escetamina é o enantiômero S da cetamina e foi desenvolvida especificamente para uso no tratamento da depressão resistente. No Brasil, sua apresentação aprovada pela Anvisa é o spray nasal comercializado como Spravato®.
Diferentemente dos antidepressivos tradicionais, que atuam principalmente sobre serotonina, noradrenalina e dopamina, a escetamina exerce sua ação por meio da modulação do sistema glutamatérgico, bloqueando receptores NMDA. Esse mecanismo desencadeia uma cascata de eventos relacionados à neuroplasticidade e à formação de novas conexões neurais, processos que parecem estar comprometidos em muitos pacientes com depressão resistente.
Essa diferença de mecanismo ajuda a explicar por que alguns pacientes que não responderam aos antidepressivos convencionais podem apresentar benefício com a escetamina.
Para quem a escetamina pode ser indicada?
A escetamina não é um tratamento de primeira linha.
Sua principal indicação é para pacientes com depressão resistente ao tratamento, geralmente definida como ausência de resposta satisfatória após pelo menos duas tentativas adequadas de tratamento antidepressivo.
Antes da indicação, o psiquiatra deve revisar diversos aspectos, incluindo:
- confirmação do diagnóstico;
- tratamentos previamente realizados;
- doses utilizadas;
- tempo adequado de tratamento;
- adesão às medicações;
- presença de outras condições clínicas ou psiquiátricas.
Se você deseja compreender melhor como é feito o diagnóstico da depressão resistente, leia também o artigo https://depressaocampinas.com.br/depressao-resistente-ao-tratamento-quando-o-antidepressivo-nao-funciona/, onde explico em detalhes esse processo de avaliação.
Como é realizado o tratamento?
A escetamina é administrada por via intranasal, sempre em ambiente de saúde e sob supervisão de uma equipe treinada.
Após cada aplicação, o paciente permanece em observação por aproximadamente duas horas. Esse período permite monitorar efeitos transitórios como:
- aumento temporário da pressão arterial;
- tontura;
- sonolência;
- náuseas;
- sintomas dissociativos.
O tratamento é realizado em associação a um antidepressivo oral e segue um protocolo dividido em fase de indução e fase de manutenção, com frequência das aplicações ajustada conforme a resposta clínica.
Escetamina é a mesma coisa que Cetamina?
Não.
Embora sejam moléculas relacionadas, existem diferenças importantes.
A cetamina é uma mistura de dois enantiômeros (R e S). A escetamina corresponde apenas ao enantiômero S, desenvolvido especificamente para o tratamento da depressão resistente na formulação intranasal.
No Brasil, a escetamina intranasal (Spravato®) possui aprovação da Anvisa para indicações específicas em psiquiatria. Já outras formas de utilização da cetamina podem ocorrer em contextos clínicos particulares, seguindo avaliação médica individualizada.
Para saber mais sobre a diferença entre essas duas moléculas, acesse esse outro artigo no site: https://depressaocampinas.com.br/cetamina-e-escetamina-quais-sao-as-diferencas-e-o-que-isso-significa-para-o-tratamento-da-depressao/
O que mostram os estudos científicos?
A escetamina foi estudada em um amplo programa internacional de desenvolvimento clínico que incluiu estudos randomizados, estudos de manutenção e extensões de longo prazo.
Os estudos demonstraram que, quando associada a um antidepressivo oral, a escetamina pode reduzir significativamente os sintomas depressivos em pacientes com depressão resistente e diminuir o risco de recaída naqueles que respondem ao tratamento.
Principais estudos sobre escetamina
| TRANSFORM-2 | Demonstrou eficácia da escetamina associada ao antidepressivo oral na redução dos sintomas da depressão resistente após quatro semanas de tratamento. |
| SUSTAIN-1 | Demonstrou redução significativa do risco de recaída quando a escetamina foi mantida após resposta inicial ao tratamento. |
| SUSTAIN-3 | Confirmou segurança e manutenção da resposta clínica em acompanhamento de longo prazo. |
| ASPIRE I e II | Avaliaram pacientes com depressão maior e ideação suicida aguda, mostrando rápida redução dos sintomas depressivos quando associada ao tratamento padrão. |
Quais são os possíveis efeitos adversos?
Como qualquer tratamento médico, a escetamina pode causar efeitos adversos.
Os mais comuns são:
- sensação de desconexão (dissociação);
- tontura;
- sonolência;
- náuseas;
- aumento transitório da pressão arterial.
Esses sintomas costumam ocorrer logo após a aplicação, são monitorados pela equipe durante o período de observação e, na maioria dos casos, desaparecem espontaneamente em poucas horas.
A escetamina cura a depressão?
Não.
A escetamina não representa uma cura para a depressão.
Ela é uma estratégia terapêutica destinada a pacientes selecionados, especialmente aqueles com depressão resistente, e deve fazer parte de um plano de tratamento mais amplo, que pode incluir antidepressivos, psicoterapia, mudanças no estilo de vida e, quando indicado, outras terapias biológicas.
O objetivo é alcançar remissão dos sintomas, recuperação funcional e melhora sustentada da qualidade de vida.
Na prática do consultório
Dr. Lucas Giraldelli
Médico Psiquiatra
Nos últimos anos, acompanhei de perto a incorporação da escetamina à prática clínica, tanto no ambiente acadêmico quanto hospitalar. Essa experiência reforçou uma percepção importante: pacientes com depressão resistente frequentemente chegam ao consultório após uma longa trajetória de tratamentos, marcada por sucessivas tentativas frustradas e pela sensação de que “não existe mais solução”.
Na prática, essa raramente é a realidade.
Antes de indicar a escetamina, considero fundamental revisar cuidadosamente o diagnóstico, entender como foram conduzidos os tratamentos anteriores e avaliar se realmente estamos diante de um quadro de depressão resistente. Essa etapa é tão importante quanto a própria escolha do tratamento.
Minha atuação é dedicada à psiquiatria intervencionista, com foco em pacientes com depressão resistente. Sou especialista em Psiquiatria pela UNICAMP, pós-graduado em Psiquiatria Intervencionista pelo IPq-USP, coordeno o Serviço de Psiquiatria do Hospital São Luiz Campinas (Rede D’Or), colaborei com o Serviço de Escetamina do Ambulatório de Psiquiatria da UNICAMP e participo da capacitação de médicos sobre o uso da escetamina intranasal.
O que mais me chama atenção é que a escetamina ampliou significativamente as possibilidades terapêuticas para pacientes que, até poucos anos atrás, tinham alternativas bastante limitadas. Quando indicada de forma criteriosa e integrada a um plano terapêutico completo, ela representa uma ferramenta importante para reduzir sintomas, recuperar funcionalidade e devolver perspectiva a pessoas que convivem com a depressão resistente.
Perguntas frequentes
A escetamina é indicada para qualquer tipo de depressão?
Não. Sua principal indicação é para pacientes com depressão resistente ao tratamento, após avaliação individualizada.
A aplicação precisa ser feita em uma clínica?
Sim. A administração deve ocorrer em ambiente de saúde, com monitorização e observação após a aplicação.
Quanto tempo demora para o tratamento fazer efeito?
Alguns pacientes apresentam melhora nas primeiras semanas de tratamento, embora a resposta seja individual e deva ser acompanhada ao longo do tempo.
A escetamina substitui meu antidepressivo?
Na maioria dos casos, não. O tratamento é realizado em associação a um antidepressivo oral, conforme as indicações aprovadas.
Referências
- Daly EJ, Trivedi MH, Janik A, et al. Efficacy of Esketamine Nasal Spray Plus Oral Antidepressant Treatment for Relapse Prevention in Treatment-Resistant Depression.JAMA Psychiatry. 2019.
- Fedgchin M, Trivedi MH, Daly EJ, et al. Esketamine Nasal Spray Plus Oral Antidepressant in Patients With Treatment-Resistant Depression (TRANSFORM-1).International Journal of Neuropsychopharmacology. 2019.
- Wajs E, Aluisio L, Holder R, et al. Long-term Safety and Maintenance of Response With Esketamine Nasal Spray (SUSTAIN-3).
- Fu DJ, Ionescu DF, Li X, et al. Esketamine Nasal Spray in Patients With Major Depressive Disorder and Acute Suicidal Ideation or Behavior (ASPIRE I).
- Ionescu DF, Fu DJ, Qiu X, et al. ASPIRE II Trial.McIntyre RS, et al. CANMAT 2023 Clinical Guidelines for the Management of Major Depressive Disorder.
Dr. Lucas Giraldelli
CRMSP 183221 | RQE 135007
Especialista em Psiquiatria pela UNICAMP
Pós-graduação em Psiquiatria Intervencionista pelo IPq-USP
Coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital São Luiz Campinas (Rede D’Or)