Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista
Uma das frases que mais escuto no consultório é:
“Doutor, eu já tentei de tudo e nada resolveu.”
Em geral, quem chega dizendo isso já passou por uma longa caminhada. São meses ou anos convivendo com sintomas que persistem apesar de consultas, mudanças de medicamentos e diferentes tentativas de tratamento. Muitas pessoas já chegam acreditando que têm uma depressão resistente e, não raramente, com a sensação de que “não existe mais nada para fazer”.
Entendo perfeitamente esse sentimento. Afinal, quando diferentes tratamentos não trazem a melhora esperada, é natural pensar que a doença simplesmente não responde às medicações.
Mas essa conclusão merece um cuidado importante.
Na psiquiatria, chamar uma depressão de resistente ao tratamento não significa apenas dizer que um ou dois antidepressivos não funcionaram. Existe uma série de critérios que precisam ser avaliados antes de chegarmos a esse diagnóstico. E isso acontece porque, em muitos casos, o problema não é exatamente a falta de resposta da doença, mas algum fator que impediu o tratamento de ter a chance de funcionar adequadamente.
É justamente nesse contexto que surge um conceito chamado pseudo-resistência.
Apesar do nome pouco conhecido fora do meio médico, esse é um dos temas mais importantes quando avaliamos pacientes com depressão de difícil tratamento. Pseudo-resistência significa, literalmente, uma falsa impressão de resistência. Ou seja, a depressão parece resistente, mas, quando investigamos a história com mais profundidade, percebemos que existem outros fatores explicando por que a melhora não aconteceu.
Esses fatores são muito mais comuns do que as pessoas imaginam. Às vezes, o diagnóstico inicial não era exatamente depressão. Em outras situações, a dose do antidepressivo nunca foi suficiente, o tratamento foi interrompido precocemente, houve dificuldade para manter o uso diário da medicação ou existe outra condição clínica ou psiquiátrica interferindo na resposta ao tratamento.
Perceba que, em todos esses exemplos, o problema não está necessariamente no antidepressivo. Antes de concluir que a doença é resistente, precisamos entender se ela realmente teve a oportunidade de responder ao tratamento proposto.
Essa diferença parece apenas uma questão de nomenclatura, mas tem um impacto enorme na prática clínica. Se classificamos um paciente como portador de depressão resistente antes de fazer essa investigação, corremos o risco de indicar tratamentos mais complexos quando, na verdade, ainda existe um fator básico que pode ser corrigido.
Uma revisão publicada na World Psychiatry, uma das revistas científicas mais importantes da área, reforça exatamente esse ponto. Os autores mostram que uma parcela significativa dos pacientes inicialmente considerados portadores de depressão resistente apresenta, na realidade, algum tipo de pseudo-resistência. Isso significa que, antes de pensar em estratégias como escetamina, cetamina intravenosa ou estimulação magnética transcraniana, é fundamental revisar cuidadosamente o diagnóstico, a história dos tratamentos anteriores e todas as possíveis causas de uma resposta aparentemente insuficiente.
Essa é, inclusive, uma parte importante do meu trabalho no consultório.
Quando recebo um paciente encaminhado como portador de depressão resistente, minha primeira preocupação não é escolher o próximo medicamento. Antes disso, procuro reconstruir toda a trajetória do tratamento: quais sintomas estavam presentes no início, quais medicamentos foram utilizados, por quanto tempo permaneceram em uso, quais doses foram alcançadas, como foi a adesão ao tratamento e se existe alguma informação que possa ter passado despercebida ao longo do caminho.
Em muitos casos, essa revisão muda completamente a forma como conduzimos o tratamento.
E é justamente por isso que entender o que é pseudo-resistência é tão importante. Antes de responder à pergunta “qual é o melhor tratamento?”, precisamos responder outra, ainda mais importante:
Estamos realmente diante de uma depressão resistente ou existe algo impedindo que o tratamento funcione?
Referência:
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