Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico Psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista

A escetamina faz efeito rápido, mas quanto tempo essa melhora dura? Entenda como funciona o tratamento, quando é necessária a manutenção e o que mostram os principais estudos científicos.


A melhora pode acontecer rápido. O desafio é fazê-la durar.

Quando alguém pesquisa sobre escetamina, normalmente já percorreu um caminho difícil.

São meses — às vezes anos — convivendo com uma depressão que não respondeu aos antidepressivos tradicionais. Depois de tantas tentativas frustradas, é natural que a possibilidade de um tratamento com ação mais rápida desperte esperança.

Mas existe uma pergunta que quase sempre aparece logo em seguida.

“Se eu melhorar, essa melhora vai durar?”

Essa talvez seja uma das dúvidas mais importantes sobre a escetamina.

E a resposta não está em um número de horas, dias ou semanas.

Porque a escetamina não foi desenvolvida para funcionar como um analgésico, cujo efeito começa e termina em um período previsível.

Ela faz parte de uma estratégia de tratamento cujo objetivo é muito maior do que aliviar sintomas temporariamente.

O objetivo é construir uma recuperação consistente.


A escetamina não trata apenas os sintomas. Ela tenta mudar a forma como o cérebro funciona.

Para entender quanto tempo dura seu efeito, primeiro precisamos compreender como ela funciona.

Os antidepressivos convencionais atuam principalmente sobre serotonina, noradrenalina e dopamina.

A escetamina segue um caminho diferente.

Ela atua predominantemente sobre o sistema glutamatérgico, bloqueando receptores NMDA e desencadeando uma série de mecanismos que estimulam a neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de reorganizar conexões importantes para o humor, a motivação, a memória e a regulação emocional.

Em outras palavras, ela não tenta apenas aumentar neurotransmissores.

Ela favorece um ambiente em que o cérebro consegue voltar a formar conexões que estavam comprometidas pela depressão.

É justamente esse mecanismo que ajuda a explicar por que alguns pacientes apresentam melhora muito mais cedo do que esperaríamos com antidepressivos tradicionais.


Então por que não basta uma única aplicação?

Essa é uma dúvida muito comum.

Muitas pessoas imaginam que a escetamina funciona como uma injeção: aplica, melhora e pronto. Na prática, não é assim.

Os grandes estudos clínicos que levaram à aprovação da escetamina nunca avaliaram apenas uma aplicação isolada.

Todos utilizaram protocolos estruturados, justamente porque a recuperação da depressão resistente acontece de maneira gradual.

Alguns pacientes realmente relatam melhora nas primeiras 24 horas.

Outros começam a perceber mudanças depois da terceira ou quarta sessão.

Também existem pessoas que não respondem ao tratamento.

Por isso, a pergunta correta não é: “Quanto dura uma aplicação?”

Mas sim: “Como fazemos para manter a melhora ao longo do tempo?”


Existe uma fase para melhorar e outra para manter a melhora

O tratamento costuma ser dividido em duas etapas.

A primeira é chamada de fase de indução.

Seu objetivo é reduzir rapidamente os sintomas e alcançar uma resposta clínica consistente.

Nessa fase, normalmente as aplicações acontecem duas vezes por semana durante aproximadamente quatro semanas.

Depois disso, começa uma etapa completamente diferente.

A partir do momento em que o paciente melhora, o foco deixa de ser “como fazê-lo responder” e passa a ser “como evitar que ele volte a piorar”.

É aí que entra a fase de manutenção.

As aplicações deixam de ser tão frequentes e passam a ser individualizadas. Alguns pacientes realizam sessões semanais. Outros conseguem espaçar para quinzenais. Em determinadas situações, os intervalos tornam-se ainda maiores.

O objetivo é encontrar o menor número de aplicações capaz de manter a estabilidade clínica.


O que acontece quando a escetamina é interrompida?

Essa pergunta foi respondida em um dos estudos mais importantes sobre o tratamento da depressão resistente.

No estudo SUSTAIN-1, pesquisadores acompanharam pacientes que haviam apresentado boa resposta à escetamina.

Depois disso, uma parte continuou recebendo o tratamento. Outra parte interrompeu a escetamina e permaneceu apenas com o antidepressivo oral. O resultado foi bastante claro.

Os pacientes que continuaram a escetamina apresentaram um risco significativamente menor de recaída.

Isso não significa que toda pessoa precisará utilizar escetamina indefinidamente. Mas mostra que, para muitos pacientes, interromper o tratamento precocemente aumenta a chance de a depressão voltar.


A melhora dura mais quando o restante do tratamento também funciona

Talvez esse seja o aspecto mais importante de todo o tratamento.

A escetamina não atua sozinha.

Quando um paciente começa a dormir melhor, consegue voltar à atividade física, retoma a psicoterapia e recupera gradualmente sua rotina, a probabilidade de manter a melhora aumenta.

É justamente por isso que gosto de dizer aos meus pacientes que a escetamina abre uma janela de oportunidade.

Ela reduz sintomas que antes impediam qualquer mudança.

O restante do tratamento aproveita essa janela para construir uma recuperação mais duradoura.

É por isso que centros especializados trabalham de forma integrada: Escetamina. Psicoterapia. Mudanças de estilo de vida. Controle das doenças clínicas. Acompanhamento psiquiátrico.

Nenhuma dessas estratégias compete entre si. Elas se complementam.


Quanto tempo, afinal, dura o efeito da escetamina?

A resposta mais honesta é: depende da pessoa.

Alguns pacientes mantêm estabilidade durante muito tempo após reduzir a frequência das aplicações. Outros precisam de manutenção prolongada.

Alguns apresentam recaídas e necessitam reorganizar o tratamento. Até hoje, não existe um exame capaz de prever exatamente quem seguirá cada um desses caminhos.

É justamente por isso que o acompanhamento médico continua sendo indispensável.


A pergunta mais importante não é “quanto tempo dura”

Quando um paciente me pergunta quanto tempo dura o efeito da escetamina, normalmente respondo com outra reflexão.

O nosso objetivo nunca foi produzir alguns dias de melhora.

O objetivo é devolver qualidade de vida. Voltar a trabalhar. Dormir bem. Retomar relacionamentos. Planejar o futuro.

Voltar a sentir prazer pelas pequenas coisas.

É isso que realmente significa responder ao tratamento.

E essa recuperação não depende apenas da escetamina. Depende de um plano terapêutico construído para aquela pessoa.


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Referências científicas

McIntyre RS, et al. Treatment-resistant depression: definition, prevalence, detection, management, and investigational interventions. World Psychiatry. 2023.

Daly EJ, et al. Esketamine nasal spray plus oral antidepressant treatment for relapse prevention in treatment-resistant depression (SUSTAIN-1). JAMA Psychiatry. 2019.

Wajs E, et al. Long-term safety of esketamine nasal spray plus oral antidepressant (SUSTAIN-2). J Clin Psychiatry. 2020.