Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico Psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista
Descubra se a escetamina pode causar dependência, quais são os riscos reais, por que o tratamento é realizado em ambiente supervisionado e o que mostram os principais estudos científicos.
Uma das maiores preocupações de quem considera fazer escetamina é a possibilidade de desenvolver dependência.
Essa preocupação faz sentido.
Afinal, a escetamina é derivada da cetamina, uma substância conhecida há décadas na anestesiologia e que também ganhou notoriedade pelo uso recreativo em contextos completamente diferentes do tratamento médico.
É justamente por essa associação que muitos pacientes chegam ao consultório inseguros.
Será que vou ficar dependente?
A resposta precisa ser baseada em evidências, e não em mitos.
Até o momento, os estudos clínicos realizados com escetamina intranasal, utilizada dentro das indicações médicas e sob supervisão especializada, não demonstraram desenvolvimento de dependência semelhante ao observado em substâncias de abuso.
Isso não significa que o medicamento seja isento de riscos.
Significa que o contexto de uso faz toda a diferença.
Primeiro, é importante entender que dependência não é a mesma coisa que necessidade de tratamento
Esses conceitos costumam ser confundidos.
Imagine uma pessoa com hipertensão.
Ela precisa tomar medicação diariamente para manter a pressão controlada.
Isso não significa que ela seja dependente daquele medicamento.
Significa apenas que possui uma doença crônica que necessita de tratamento.
O mesmo raciocínio vale para diversos pacientes com depressão resistente.
Algumas pessoas permanecem em tratamento de manutenção porque isso reduz significativamente o risco de recaída.
Isso não caracteriza dependência química.
Por que existe essa preocupação com a escetamina?
Porque a cetamina pode ser utilizada de forma recreativa.
Em doses elevadas, fora do ambiente médico, ela pode produzir:
- alterações intensas da percepção;
- sensação de dissociação;
- euforia;
- alterações visuais;
- prejuízo do julgamento;
- comprometimento da coordenação motora.
Quando utilizada repetidamente de maneira inadequada, existe potencial para abuso e desenvolvimento de problemas físicos e psiquiátricos.
Mas esse cenário é completamente diferente do tratamento da depressão resistente.
Na prática clínica, utilizamos:
- doses cuidadosamente estudadas;
- protocolos padronizados;
- aplicações espaçadas;
- acompanhamento psiquiátrico contínuo;
- monitorização durante toda a sessão.
Essas diferenças reduzem significativamente os riscos associados ao uso inadequado.
O que mostram os estudos?
Os principais estudos clínicos que avaliaram a escetamina acompanharam pacientes durante meses.
Além da eficácia, pesquisadores monitoraram cuidadosamente possíveis sinais de abuso, uso compulsivo, tolerância e sintomas de abstinência.
Os resultados foram tranquilizadores.
Nos estudos SUSTAIN, que acompanharam pacientes em tratamento de manutenção, não foram observados padrões compatíveis com desenvolvimento de dependência química quando a escetamina foi utilizada conforme o protocolo terapêutico.
As diretrizes internacionais continuam recomendando que o tratamento seja realizado apenas em ambiente supervisionado, justamente para manter esse perfil de segurança.
A escetamina causa tolerância?
Outra dúvida comum é:
“Vou precisar de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito?”
Essa situação, conhecida como tolerância, é típica de algumas drogas de abuso.
Até o momento, não há evidências consistentes de que pacientes tratados conforme os protocolos aprovados desenvolvam necessidade progressiva de aumentar a dose por perda do efeito.
Na prática, acontece justamente o contrário.
Após a fase inicial, a maioria dos protocolos reduz a frequência das aplicações.
Em vez de aumentar continuamente as doses, muitos pacientes passam a realizar sessões mais espaçadas conforme ocorre estabilização clínica.
Existe síndrome de abstinência?
Essa é outra pergunta frequente.
Os estudos clínicos avaliaram esse aspecto de forma específica.
Até o momento, não foram descritos quadros típicos de abstinência semelhantes aos observados com álcool, benzodiazepínicos ou opioides quando a escetamina é interrompida conforme orientação médica.
O que pode acontecer é outra situação.
Se a depressão voltar a piorar após a suspensão do tratamento, isso representa uma recaída da doença e não uma síndrome de abstinência.
Essa diferença é extremamente importante.
Então por que a aplicação precisa ser supervisionada?
Porque segurança vai muito além do risco de dependência.
Após a aplicação podem ocorrer efeitos transitórios, como:
- aumento temporário da pressão arterial;
- tontura;
- sonolência;
- náuseas;
- alterações da percepção;
- dissociação.
Por esse motivo, os pacientes permanecem em observação por aproximadamente duas horas após cada sessão.
Essa monitorização permite identificar e manejar qualquer efeito adverso antes da alta.
Também é por isso que não é permitido dirigir ou operar máquinas no restante do dia.
Quem tem histórico de dependência química pode fazer escetamina?
Essa decisão deve ser individualizada.
Histórico de uso de álcool, cocaína, opioides ou outras substâncias não representa uma contraindicação absoluta.
Entretanto, esses pacientes merecem uma avaliação ainda mais cuidadosa.
O psiquiatra considera fatores como:
- tempo de abstinência;
- estabilidade clínica;
- risco de recaída;
- suporte familiar;
- acompanhamento psicológico;
- presença de outras doenças psiquiátricas.
Em muitos casos, o tratamento pode ser realizado com segurança quando existe indicação adequada e monitorização especializada.
A escetamina é um tratamento controlado justamente para proteger o paciente
Uma das razões pelas quais a escetamina é administrada apenas em clínicas habilitadas é garantir que todo o processo aconteça de maneira segura.
O paciente não leva o medicamento para casa.
Não realiza aplicações sozinho.
Cada sessão segue protocolos rigorosos relacionados à dose, observação clínica e critérios para alta.
Esse modelo reduz significativamente a possibilidade de uso inadequado.
A ciência continua acompanhando esses pacientes
Embora os resultados atuais sejam bastante tranquilizadores, a pesquisa continua.
Os estudos de longo prazo acompanham pacientes por vários anos justamente para monitorar:
- eficácia;
- segurança;
- cognição;
- memória;
- função urinária;
- pressão arterial;
- possíveis sinais de uso inadequado.
Até o momento, os dados permanecem favoráveis quando a escetamina é utilizada conforme as recomendações médicas.
A mensagem mais importante
É compreensível que pacientes e familiares tenham receio ao ouvir que a escetamina deriva da cetamina.
Mas é importante separar o uso recreativo do tratamento médico.
No contexto da depressão resistente, a escetamina é utilizada em doses específicas, por profissionais treinados, seguindo protocolos rigorosos de segurança.
Os estudos disponíveis não demonstram desenvolvimento de dependência química semelhante ao observado em drogas de abuso quando o tratamento é realizado corretamente.
Isso não significa ausência de riscos.
Significa que esses riscos são cuidadosamente avaliados, monitorados e manejados durante todo o tratamento.
Mais do que perguntar se a escetamina causa dependência, a pergunta mais importante costuma ser outra:
Ela é o tratamento mais adequado para este paciente, neste momento?
É essa avaliação individualizada que garante um tratamento seguro, baseado em evidências e focado na recuperação da qualidade de vida.
Perguntas frequentes
A escetamina vicia?
Os estudos clínicos não demonstraram desenvolvimento de dependência química quando a escetamina é utilizada conforme os protocolos médicos aprovados.
Posso ficar “acostumado” à escetamina?
Não há evidências de necessidade progressiva de aumento da dose por tolerância nos protocolos atualmente utilizados.
Posso usar escetamina em casa?
Não. A aplicação deve ocorrer exclusivamente em ambiente de saúde com monitorização após cada sessão.
Quem já teve dependência química pode fazer o tratamento?
Depende do caso. É necessária uma avaliação individualizada do histórico, da estabilidade clínica e dos riscos e benefícios.
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