Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico Psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista

A escetamina não é indicada para toda depressão. Descubra quem pode fazer esse tratamento, quais critérios são utilizados e quando ela realmente faz sentido.


“Doutor, eu posso fazer escetamina?”

Essa é uma das perguntas que mais escuto no consultório. Na maioria das vezes, ela vem acompanhada de uma história parecida.

A pessoa já tentou diferentes antidepressivos. Mudou doses, trocou medicamentos, fez psicoterapia, ouviu que precisava “ter mais paciência” e, mesmo assim, continua convivendo com tristeza, falta de energia, dificuldade para trabalhar e a sensação de que nada realmente mudou.

Quando isso acontece, é natural procurar uma alternativa.

A escetamina representa um dos maiores avanços no tratamento da depressão resistente nas últimas décadas, mas existe um ponto importante que merece ser esclarecido desde o início.

Ela não é indicada para toda pessoa com depressão.

Assim como qualquer tratamento médico, existe um momento certo para utilizá-la e critérios que precisam ser avaliados antes da primeira aplicação. Na prática, uma boa indicação começa muito antes do spray nasal. Ela começa com um diagnóstico correto.


Antes de pensar em escetamina, precisamos responder outra pergunta

A depressão realmente é resistente?

Pode parecer uma pergunta simples. Mas, surpreendentemente, muitos pacientes encaminhados como portadores de depressão resistente ainda não preencheram todos os critérios para receber esse diagnóstico.

Isso acontece porque existem situações que simulam resistência ao tratamento.

Chamamos esse fenômeno de pseudo-resistência.

Ela pode ocorrer quando:

  • o antidepressivo foi utilizado em dose insuficiente;
  • o tratamento foi interrompido precocemente;
  • houve baixa adesão;
  • o diagnóstico estava incompleto;
  • existe outra doença interferindo na resposta.

Antes de indicar escetamina, revisar cuidadosamente toda essa história costuma ser o primeiro passo.

Leia também: O que é pseudo-resistência na depressão?


O que caracteriza uma depressão resistente?

De maneira geral, consideramos depressão resistente quando o paciente não apresenta melhora clínica satisfatória após pelo menos duas tentativas de tratamento com antidepressivos de classes diferentes, utilizados na dose adequada e pelo tempo recomendado durante o mesmo episódio depressivo.

Essa definição é adotada pelas principais diretrizes internacionais, incluindo a CANMAT e a revisão publicada na World Psychiatry.

Isso não significa que a pessoa tenha “uma depressão mais grave”.

Significa que a doença não respondeu como esperado aos tratamentos convencionais.

É justamente nesse cenário que tratamentos como a escetamina passam a fazer parte das possibilidades terapêuticas.

Leia também: Quantos antidepressivos precisam falhar?


Quem costuma ser um bom candidato à escetamina?

Não existe um perfil único.

Mas alguns pacientes frequentemente se beneficiam desse tratamento.

Entre eles estão pessoas que:

  • continuam apresentando sintomas importantes apesar de diferentes antidepressivos;
  • apresentam grande prejuízo na vida profissional ou familiar;
  • convivem com episódios depressivos recorrentes;
  • responderam parcialmente aos medicamentos, mas nunca recuperaram a qualidade de vida;
  • apresentam recaídas frequentes após melhora inicial.

Em muitos desses casos, insistir indefinidamente na troca de antidepressivos oferece poucas chances de benefício adicional.

É nesse momento que avaliamos estratégias diferentes.


A escetamina não costuma ser a primeira opção

Quando um paciente recebe o diagnóstico de depressão pela primeira vez, a escetamina normalmente não é o tratamento inicial.

As primeiras escolhas costumam envolver:

  • antidepressivos com eficácia comprovada;
  • psicoterapia baseada em evidências;
  • atividade física;
  • tratamento de doenças associadas;
  • mudanças no estilo de vida.

A maioria das pessoas melhora com essas medidas.

A escetamina passa a ser considerada quando elas não foram suficientes.

Isso é importante porque evita tanto o uso precoce quanto o atraso desnecessário de um tratamento potencialmente eficaz.


Existem situações que precisam ser investigadas antes

Nem toda falta de resposta aos antidepressivos significa que a escetamina será o próximo passo.

Algumas condições precisam ser identificadas primeiro.

Entre elas: Transtorno bipolar

Pacientes com transtorno bipolar podem apresentar episódios depressivos muito semelhantes à depressão unipolar.

Se o diagnóstico não for reconhecido, apenas trocar antidepressivos dificilmente resolverá o problema.


Transtornos de ansiedade importantes

Ansiedade intensa pode manter sintomas que parecem depressão resistente.

Nesses casos, tratar adequadamente ambos os quadros costuma fazer diferença.


Doenças clínicas

Hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12, anemia, doenças inflamatórias, distúrbios do sono e outras condições médicas podem interferir na resposta ao tratamento.

Por isso, a investigação clínica continua sendo fundamental.


Existem contraindicações?

Como qualquer tratamento médico, a escetamina não é indicada para todas as pessoas.

Algumas situações exigem maior cautela ou podem contraindicar o tratamento, como:

  • aneurismas intracranianos ou outras doenças vasculares em que aumentos transitórios da pressão arterial representem risco significativo;
  • hipertensão arterial grave não controlada;
  • história de hipersensibilidade ao medicamento.

Também é necessária uma avaliação individualizada em pacientes com:

  • transtornos por uso de substâncias;
  • sintomas psicóticos;
  • gestação;
  • doenças cardiovasculares importantes.

Esses fatores não significam automaticamente que o tratamento seja impossível.

Significam apenas que a decisão deve ser tomada com ainda mais cuidado.


Como é feita a avaliação antes da escetamina?

Essa talvez seja a parte mais importante de todo o processo.

No consultório, a decisão não acontece em poucos minutos.

Ela envolve uma revisão detalhada de toda a história do paciente.

Costumo avaliar aspectos como:

  • quando os sintomas começaram;
  • quantos episódios depressivos ocorreram;
  • quais medicamentos já foram utilizados;
  • doses e tempo de uso;
  • efeitos colaterais;
  • resposta obtida;
  • presença de ansiedade;
  • histórico familiar;
  • doenças clínicas;
  • qualidade do sono;
  • uso de álcool ou outras substâncias;
  • psicoterapia prévia;
  • impacto da doença na rotina.

Em muitos casos, também utilizamos escalas padronizadas para acompanhar objetivamente a evolução dos sintomas.


Dois pacientes podem receber respostas completamente diferentes

Imagine duas pessoas que chegam ao consultório dizendo exatamente a mesma frase:

“Já tomei três antidepressivos e nenhum funcionou.”

À primeira vista, ambas poderiam parecer candidatas à escetamina. Mas nem sempre é assim.

Em uma delas, descobrimos que nenhum antidepressivo foi utilizado pelo tempo adequado. Na outra, identificamos um transtorno bipolar. Em um terceiro paciente, encontramos um hipotireoidismo não tratado. Já outro realmente apresenta depressão resistente e reúne todos os critérios para iniciar escetamina.

É justamente por isso que a indicação nunca pode ser feita apenas pelo número de medicamentos utilizados.


A escetamina faz parte de um tratamento maior

Outro ponto importante é entender que a escetamina dificilmente representa todo o tratamento.

Na maioria dos casos, ela é associada a:

  • antidepressivo oral;
  • psicoterapia;
  • atividade física;
  • acompanhamento psiquiátrico regular;
  • tratamento das doenças associadas.

Essa abordagem integrada é justamente o que oferece as maiores chances de recuperação.


Então, quem pode fazer escetamina?

De forma resumida, costumam ser candidatos os pacientes que:

✔ possuem diagnóstico confirmado de transtorno depressivo maior;

✔ não responderam adequadamente a pelo menos dois antidepressivos utilizados corretamente;

✔ passaram por investigação das principais causas de pseudo-resistência;

✔ foram avaliados por um psiquiatra com experiência em depressão resistente;

✔ não apresentam contraindicações importantes para o tratamento.

Mais importante do que preencher uma lista de critérios é compreender toda a história clínica.

É ela que determina se a escetamina representa realmente a melhor estratégia.


A mensagem mais importante

A escetamina não é um tratamento reservado apenas para os casos “sem solução”.

Ela também não deve ser utilizada precocemente, antes que uma investigação adequada seja realizada.

O maior benefício acontece quando ela é indicada para o paciente certo, no momento certo.

Mais do que perguntar “eu posso fazer escetamina?”, talvez exista uma pergunta ainda melhor.

“Minha depressão já foi investigada da forma mais completa possível?”

Porque é justamente dessa resposta que nasce um tratamento verdadeiramente individualizado.


Perguntas frequentes

Preciso ter tentado quantos antidepressivos?

Em geral, pelo menos duas tentativas adequadas com antidepressivos de classes diferentes durante o mesmo episódio depressivo.


Quem está deprimido pode fazer escetamina?

Não necessariamente. A maioria dos pacientes melhora com tratamentos convencionais. A escetamina costuma ser considerada quando existe depressão resistente.


Quem tem ansiedade pode fazer?

Sim, desde que exista indicação clínica. Ansiedade associada é comum em pacientes com depressão resistente.


A escetamina substitui meu antidepressivo?

Na maioria das indicações aprovadas, não. Ela é utilizada em associação a um antidepressivo oral.


Leia também

➡️ Quantos antidepressivos precisam falhar antes de considerar uma depressão resistente?

➡️ Quanto tempo um antidepressivo demora para fazer efeito?

➡️ O antidepressivo realmente não funcionou? Antes de falar em depressão resistente, precisamos conversar sobre pseudo-resistência.


Referências

1. McIntyre RS, et al. Treatment-resistant depression: definition, prevalence, detection, management, and investigational interventions. World Psychiatry. 2023.

2. Reif A, et al. Esketamine nasal spray versus quetiapine extended release in treatment-resistant depression (ESCAPE-TRD). N Engl J Med. 2023.

3. Daly EJ, et al. Esketamine nasal spray plus oral antidepressant for relapse prevention in treatment-resistant depression. JAMA Psychiatry. 2019.

4. CANMAT Clinical Guidelines for the Management of Major Depressive Disorder in Adults. Canadian Journal of Psychiatry. 2024.