Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista

Nesta semana participei do quadro “Faz Bem”, da EPTV Campinas/Piracicaba (afiliada da TV Globo), para conversar sobre um tema que gera muitas dúvidas e frequentemente leva pacientes ao pronto-socorro: a crise de pânico.

Embora seja um transtorno psiquiátrico, uma crise de pânico provoca sintomas físicos intensos e absolutamente reais. Muitas pessoas acreditam estar sofrendo um infarto, um AVC ou outro problema grave de saúde quando, na verdade, estão diante de uma ativação extrema do sistema de alarme do organismo. 

Nesta reportagem, expliquei por que isso acontece, como reconhecer uma crise de pânico e quando é fundamental procurar atendimento médico.

🎥 Dr. Lucas Giraldelli na mídia
Entrevista concedida à EPTV Campinas/Piracicaba (TV Globo), exibida no quadro “Faz Bem”, sobre crise de pânico.

https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/videos-jornal-da-eptv-1-edicao-campinas-e-piracicaba/video/faz-bem-sindrome-do-panico-provoca-sintomas-fisicos-e-pode-ser-confundida-14828905.ghtml

O que é uma crise de pânico?

A crise de pânico é um episódio súbito de medo intenso acompanhado por uma ativação exagerada do sistema nervoso autônomo.

Em poucos minutos, o organismo libera adrenalina e outras substâncias que desencadeiam respostas típicas de uma situação de perigo, mesmo quando não existe uma ameaça real.

O resultado é uma combinação de sintomas físicos e emocionais extremamente intensos.

Quais são os sintomas?

Durante uma crise, é comum ocorrer:

  • coração acelerado;
  • dor ou aperto no peito;
  • falta de ar;
  • sensação de sufocamento;
  • tontura;
  • tremores;
  • suor excessivo;
  • formigamentos;
  • náuseas;
  • sensação de desmaio;
  • medo intenso de morrer;
  • sensação de perda de controle;
  • medo de “enlouquecer”.

Esses sintomas costumam atingir o pico em poucos minutos e podem ser tão intensos que muitos pacientes procuram imediatamente um serviço de emergência. 

Por que parece um infarto?

Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório.

O cérebro interpreta equivocadamente que existe uma ameaça extrema e prepara o corpo para lutar ou fugir.

Isso provoca:

  • aumento da frequência cardíaca;
  • aceleração da respiração;
  • aumento da pressão arterial;
  • tensão muscular;
  • liberação de adrenalina.

Todas essas alterações são reais.

Por isso, o paciente sente dor, falta de ar e palpitações de maneira intensa.

Como diferenciar uma crise de pânico de um infarto?

Essa diferenciação nem sempre pode ser feita apenas pelos sintomas.

Especialmente quando a dor no peito surge pela primeira vez, é importante procurar atendimento médico para descartar causas clínicas potencialmente graves.

Somente após essa avaliação é possível afirmar com segurança que os sintomas estão relacionados a uma crise de pânico.

Ou seja:

Nem toda dor no peito é infarto. Mas toda dor importante no peito merece avaliação médica.

Existe tratamento?

Sim.

O transtorno do pânico é tratável.

O tratamento pode incluir:

  • psicoterapia, especialmente terapia cognitivo-comportamental;
  • medicamentos quando indicados;
  • técnicas para redução da ansiedade;
  • mudanças no estilo de vida.

O tratamento deve ser individualizado e conduzido por um profissional capacitado.

Na prática do consultório

Ao longo da minha atuação como psiquiatra, uma das situações mais marcantes é atender pacientes que chegam convencidos de que estão sofrendo uma doença cardíaca grave, quando, após uma avaliação cuidadosa, identificamos que os sintomas fazem parte de um transtorno do pânico.

Essa confusão é compreensível. Durante uma crise, o coração acelera, a respiração muda, o peito pode doer e a sensação de morte iminente é extremamente convincente. O sofrimento é genuíno e jamais deve ser minimizado.

Como coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital São Luiz Campinas (Rede D’Or), acompanho pacientes com diferentes transtornos de ansiedade, incluindo casos de maior complexidade. Minha experiência reforça que o diagnóstico correto é o primeiro passo para reduzir o medo, interromper o ciclo das crises e permitir que o paciente retome sua rotina com segurança.

Participar do quadro “Faz Bem”, da EPTV Campinas/Piracicaba, foi uma oportunidade de levar essas informações para um público maior e reforçar uma mensagem importante: crise de pânico tem tratamento e não deve ser motivo de vergonha. Da mesma forma, sintomas como dor no peito e falta de ar nunca devem ser ignorados, especialmente quando surgem pela primeira vez.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura uma crise de pânico?

Na maioria dos casos, os sintomas atingem intensidade máxima em cerca de 10 minutos e diminuem progressivamente, embora algumas pessoas possam permanecer ansiosas por mais tempo.

Quem tem uma crise de pânico terá outras?

Não necessariamente. Algumas pessoas apresentam um episódio isolado, enquanto outras desenvolvem o transtorno do pânico, caracterizado por crises recorrentes e preocupação persistente com novos episódios.

Crise de pânico e ansiedade são a mesma coisa?

Não. A crise de pânico costuma surgir de forma súbita e intensa, enquanto a ansiedade geralmente está relacionada a preocupações persistentes e tende a se desenvolver de maneira mais gradual. 

Quando devo procurar um psiquiatra?

Se as crises se repetem, causam sofrimento importante, levam você a evitar situações do dia a dia ou comprometem sua qualidade de vida, é recomendável procurar avaliação especializada.

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Referências

  • American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR).
  • Craske MG, Stein MB. Anxiety. N Engl J Med. 2016.
  • Bandelow B, et al. World Federation of Societies of Biological Psychiatry (WFSBP) Guidelines for Anxiety Disorders.