Por Dr. Lucas Giraldelli
Médico Psiquiatra | Especialista em Depressão Resistente e Psiquiatria Intervencionista
Durante muito tempo, a depressão foi explicada principalmente por alterações em neurotransmissores, como serotonina, noradrenalina e dopamina. Embora esses sistemas continuem sendo relevantes, a pesquisa científica ampliou consideravelmente nossa compreensão da doença.
Uma das áreas mais investigadas atualmente é a relação entre depressão, inflamação e funcionamento do sistema imunológico.
A hipótese é intrigante: processos inflamatórios que normalmente ajudam o organismo a responder a infecções e lesões também poderiam influenciar circuitos cerebrais relacionados ao humor, à motivação e à energia.
Mas existe uma diferença importante entre identificar essa associação e afirmar que a depressão é causada por inflamação.
A ciência já encontrou conexões relevantes entre os dois fenômenos. O que ainda não demonstrou é que um exame inflamatório possa diagnosticar depressão ou determinar, com segurança, o melhor tratamento para cada paciente.
O que é inflamação e por que ela importa para o cérebro?
A inflamação é uma resposta biológica do organismo diante de diferentes estímulos, incluindo infecções, lesões e alterações teciduais.
Ela envolve a participação de células imunológicas e substâncias sinalizadoras, como as citocinas.
Em condições normais, essa resposta ajuda a proteger o organismo e a coordenar processos de recuperação.
Entretanto, a atividade inflamatória não ocorre de maneira isolada. O sistema imunológico mantém comunicação constante com o sistema nervoso.
Essa comunicação pode acontecer por diferentes vias, incluindo sinais humorais, mecanismos neurais e alterações metabólicas.
Em determinadas circunstâncias, a sinalização inflamatória pode influenciar processos relacionados ao sono, ao apetite, à disposição física e ao comportamento.
É por isso que uma infecção, por exemplo, frequentemente provoca cansaço, redução da motivação e vontade de permanecer em repouso.
Esse conjunto de manifestações é conhecido na literatura como sickness behavior, ou comportamento associado à doença.
A semelhança entre algumas dessas manifestações e sintomas depressivos contribuiu para o interesse científico na relação entre imunidade e saúde mental.
A depressão é uma doença inflamatória?
Essa afirmação seria uma simplificação excessiva.
A depressão é uma condição heterogênea, ou seja, diferentes pessoas podem apresentar combinações distintas de sintomas, fatores de risco e mecanismos biológicos envolvidos.
Em alguns grupos de pacientes, estudos identificam concentrações médias mais elevadas de determinados marcadores inflamatórios.
Entre os mais investigados estão:
- Proteína C-reativa (PCR).
- Interleucina-6 (IL-6).
- Fator de necrose tumoral alfa (TNF-α).
- Outras citocinas relacionadas à atividade imunológica.
Entretanto, esses achados não são uniformes.
Existem pacientes com depressão que não apresentam elevação desses marcadores. Também existem pessoas com marcadores inflamatórios elevados que não apresentam depressão.
Além disso, obesidade, tabagismo, doenças metabólicas, infecções, condições autoimunes e outros fatores podem influenciar os resultados.
Portanto, a presença de inflamação não é necessária nem suficiente para estabelecer o diagnóstico de depressão.
O que mostram os estudos científicos?
Uma revisão sistemática e metanálise publicada em Psychological Medicine investigou a relação longitudinal entre sintomas depressivos e marcadores inflamatórios.
Os pesquisadores reuniram 38 estudos, com dados de 58.256 participantes.
Os resultados identificaram associações prospectivas entre marcadores como PCR e IL-6 e sintomas depressivos posteriores.
Também foram observadas associações na direção inversa: sintomas depressivos se relacionaram a alterações inflamatórias em avaliações futuras.
Entretanto, a magnitude dessas relações foi geralmente pequena, especialmente após o ajuste para fatores que poderiam influenciar os resultados.
Esse detalhe é fundamental.
Uma associação estatisticamente significativa em milhares de participantes não significa necessariamente que o marcador seja útil para prever o adoecimento de uma pessoa específica.
Mais recentemente, uma metanálise publicada em 2026, reunindo 124 estudos e dados de mais de 423 mil participantes, também encontrou associações entre depressão e marcadores inflamatórios.
Os efeitos observados foram modestos, e algumas relações variaram conforme o sexo e o marcador analisado.
Em conjunto, essas pesquisas sustentam a importância científica da hipótese inflamatória, mas não autorizam concluir que exista um mecanismo único responsável pela depressão.
Como a inflamação poderia influenciar o humor?
Os mecanismos propostos envolvem diferentes processos biológicos.
Um deles é a possibilidade de a sinalização inflamatória modificar a atividade de circuitos relacionados à motivação e à recompensa.
Outro envolve alterações no metabolismo de aminoácidos e em vias bioquímicas que participam da comunicação entre células nervosas.
Também são investigadas possíveis relações entre inflamação, resposta ao estresse e funcionamento de sistemas neuroendócrinos.
Esses mecanismos podem ajudar a explicar por que determinados sintomas, como fadiga, redução de energia e perda de interesse, despertam interesse especial nas pesquisas sobre imunidade e depressão.
Mas é importante fazer uma distinção: demonstrar um mecanismo plausível em modelos experimentais não significa que ele esteja comprovadamente presente ou seja predominante em todos os pacientes.
A neurobiologia da depressão provavelmente envolve diferentes caminhos que interagem entre si.
A inflamação pode explicar por que algumas pessoas não melhoram com antidepressivos?
Essa é uma das perguntas mais relevantes da área.
Pesquisas identificaram associações entre determinados marcadores inflamatórios e a resposta a alguns tratamentos antidepressivos.
Por exemplo, concentrações mais elevadas de PCR e de algumas interleucinas foram relacionadas, em certos estudos, a resultados menos favoráveis com antidepressivos específicos.
Entretanto, essas associações apresentam limitações importantes.
A diretriz CANMAT, atualizada em 2023 e publicada em 2024, analisou o potencial de diferentes biomarcadores para orientar a escolha de tratamentos.
Embora reconheça associações entre marcadores inflamatórios e resultados terapêuticos, a diretriz não recomenda sua dosagem rotineira para selecionar antidepressivos, porque os efeitos preditivos ainda são pequenos e insuficientes para justificar seu uso clínico habitual.
Portanto, não é correto afirmar que uma PCR elevada identifica automaticamente um caso de depressão resistente ao tratamento.
O diagnóstico de resistência terapêutica depende da avaliação clínica e da análise dos tratamentos previamente realizados.
Vale a pena pedir PCR e exames inflamatórios para investigar depressão?
Não como exames específicos para confirmar depressão.
A PCR é um marcador inespecífico de inflamação. Seu resultado pode se alterar por inúmeras razões que não estão relacionadas diretamente ao transtorno depressivo.
Uma pessoa pode apresentar PCR elevada por uma infecção recente, por exemplo, sem que isso explique seus sintomas psiquiátricos.
Da mesma forma, uma PCR normal não exclui depressão.
Isso não significa que exames laboratoriais sejam irrelevantes na avaliação psiquiátrica.
Em determinadas situações, pode ser necessário investigar doenças clínicas, alterações metabólicas, condições endócrinas ou outros fatores que contribuam para sintomas semelhantes ou associados à depressão.
A diferença está na finalidade da investigação.
Exames podem ajudar a identificar condições clínicas relevantes, mas não substituem a avaliação psiquiátrica nem constituem um teste diagnóstico de depressão.
Para entender melhor esse processo, veja também quais exames podem mudar a investigação da depressão resistente.
Existem antidepressivos anti-inflamatórios?
Alguns antidepressivos podem apresentar efeitos sobre processos inflamatórios em determinados estudos experimentais e clínicos.
Entretanto, isso não significa que sua eficácia antidepressiva dependa necessariamente de uma ação anti-inflamatória.
Também não significa que medicamentos anti-inflamatórios convencionais devam ser utilizados para tratar depressão.
Há pesquisas avaliando intervenções direcionadas à inflamação, inclusive em subgrupos de pacientes com marcadores inflamatórios elevados.
Os resultados ainda são heterogêneos, e questões relacionadas à segurança, à seleção dos pacientes e à qualidade das evidências precisam ser consideradas.
Por isso, o uso de anti-inflamatórios ou imunomoduladores especificamente para tratar depressão não deve ser apresentado como uma estratégia estabelecida de rotina.
A investigação continua sendo promissora, mas promissor não é sinônimo de comprovado.
E a escetamina? Ela age sobre a inflamação?
A escetamina intranasal é estudada e utilizada em indicações específicas relacionadas à depressão, particularmente em contextos de resistência terapêutica.
Seu mecanismo farmacológico envolve principalmente a modulação da neurotransmissão glutamatérgica por meio do antagonismo dos receptores NMDA.
Existem investigações sobre possíveis interações entre cetamina, escetamina e processos inflamatórios.
Entretanto, não está estabelecido que a eficácia antidepressiva da escetamina dependa de uma ação anti-inflamatória, nem que marcadores como PCR possam determinar quem responderá ao tratamento.
Também não é adequado utilizar a hipótese inflamatória como justificativa isolada para indicar escetamina.
A decisão clínica depende de critérios diagnósticos, histórico terapêutico, condições de segurança e indicações regulatórias aplicáveis.
Para compreender o tratamento e suas indicações, consulte quando a escetamina pode ser indicada na depressão resistente.
Exercício físico, sono e alimentação podem interferir nessa relação?
Sono, atividade física e alimentação participam de diferentes processos metabólicos, neuroendócrinos e imunológicos.
Também são dimensões importantes da saúde mental.
A atividade física regular, por exemplo, pode contribuir para a melhora de sintomas depressivos e da saúde física, embora a magnitude dos benefícios varie conforme a intensidade dos sintomas e as características individuais.
Da mesma forma, alterações persistentes do sono podem influenciar tanto o funcionamento emocional quanto diferentes respostas fisiológicas.
Entretanto, seria inadequado afirmar que uma alimentação específica, um suplemento ou uma rotina de exercícios consegue corrigir uma suposta “inflamação cerebral” responsável pela depressão.
O tratamento de um transtorno depressivo deve considerar sua gravidade, a funcionalidade do paciente e as intervenções com evidência científica.
Hábitos de vida podem integrar esse cuidado, mas não substituem automaticamente psicoterapia, farmacoterapia ou outras intervenções quando indicadas.
O futuro da psiquiatria será guiado por exames de sangue?
A busca por biomarcadores confiáveis é uma das grandes frentes de pesquisa da psiquiatria contemporânea.
O objetivo seria identificar características biológicas que ajudassem a compreender diferenças entre pacientes e, eventualmente, orientar escolhas terapêuticas mais precisas.
Essa possibilidade é especialmente relevante porque duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar respostas muito diferentes ao mesmo tratamento.
Entretanto, transformar descobertas de pesquisa em ferramentas clínicas exige demonstrar não apenas associação estatística, mas também capacidade de previsão, reprodutibilidade e benefício real nas decisões médicas.
Atualmente, os marcadores inflamatórios ainda não cumprem esses requisitos para orientar rotineiramente a escolha de antidepressivos.
Isso não diminui a importância das descobertas. Apenas estabelece uma fronteira necessária entre conhecimento científico e aplicação clínica.
O que podemos concluir?
A relação entre inflamação e depressão representa um avanço importante na compreensão dos transtornos do humor.
As pesquisas mostram que sistemas imunológicos e cerebrais não funcionam de maneira independente e que determinados processos inflamatórios podem estar associados aos sintomas depressivos.
Entretanto, a depressão não pode ser reduzida a uma doença inflamatória, e ainda não existe um exame capaz de identificar, de maneira confiável, quais pacientes precisam de um tratamento antidepressivo específico com base nesses marcadores.
A principal contribuição dessa linha de pesquisa é ampliar nossa compreensão da diversidade biológica da depressão.
Quanto mais reconhecemos que a depressão não é uma condição uniforme, maior se torna a importância de uma avaliação clínica individualizada, cuidadosa e fundamentada em evidências.
Perguntas frequentes
A depressão aumenta a inflamação no organismo?
Alguns estudos identificam associações entre sintomas depressivos e marcadores inflamatórios mais elevados. Entretanto, a magnitude da relação costuma ser pequena e varia entre os pacientes.
PCR elevada significa que tenho depressão?
Não. A PCR é um marcador inespecífico de inflamação e não serve para diagnosticar depressão.
Existe exame para identificar depressão inflamatória?
Não existe atualmente um exame validado para diagnosticar rotineiramente um subtipo de depressão inflamatória ou definir seu tratamento.
Anti-inflamatórios ajudam no tratamento da depressão?
Algumas estratégias estão sendo investigadas, mas não existe recomendação para utilizar anti-inflamatórios convencionais de maneira indiscriminada no tratamento da depressão.
A escetamina trata a inflamação cerebral?
A escetamina possui mecanismos antidepressivos estudados principalmente em relação à neurotransmissão glutamatérgica. Não está estabelecido que seu benefício clínico decorra do tratamento de uma suposta inflamação cerebral.
Referências científicas
- The longitudinal associations of inflammatory biomarkers and depression revisited: systematic review, meta-analysis, and meta-regression. Psychological Medicine. 2020.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32807846/ - Sex-specific associations of depression with inflammatory markers: a systematic review and meta-analysis. Translational Psychiatry. 2026.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42230540/ - Jarkas DA, et al. Sex differences in the inflammation-depression link: A systematic review and meta-analysis. Brain, Behavior, and Immunity. 2024.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39089535/ - Lam RW, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Canadian Journal of Psychiatry. 2024.
https://doi.org/10.1177/07067437241245384
Este artigo tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada. Exames laboratoriais e decisões terapêuticas devem ser interpretados no contexto clínico de cada paciente.